
E-book O batom e as urnas
uma eleita a cada sete: a democracia que falha?
Autores:
Joanda Kéroly Estevão de Freitas
Ítalo Fittipaldi
Área de conhecimento:
Ciências Humanas
Idioma: Português
Ano: 2026 - 1ª Edição - Vol. 1
Número de páginas: xx páginas
Formato: Pdf
Tamanho do arquivo: x,xx MB
ISBN: 978-65-5321-143-8
DOI: 10.47538/AC-2026.63
E-book
O BATOM E AS URNAS
UMA ELEITA A CADA SETE: A DEMOCRACIA QUE FALHA?
A presença das mulheres nos espaços de poder político constitui uma das questões centrais para a compreensão dos limites e das possibilidades da democracia contemporânea. Embora as mulheres representem parcela expressiva da população e participem ativamente da vida social, econômica e comunitária, sua presença nas instituições políticas permanece marcada por desigualdades, obstáculos estruturais e mecanismos que condicionam suas possibilidades de acesso e permanência nos espaços de decisão.
É nesse cenário que se insere O Batom e as Urnas: Uma eleita a cada sete: a democracia que falha? de Joanda Kéroly Estevão De Freitas e Italo Fittipaldi. A obra apresenta uma investigação quantitativa sobre as eleições proporcionais de 2024 para as 223 câmaras municipais da Paraíba, buscando compreender não apenas quantas mulheres foram eleitas, mas, sobretudo, quais fatores estão associados às suas chances de alcançar o sucesso eleitoral.
A pesquisa parte de uma questão fundamental: qual é a chance de uma mulher ser eleita para uma câmara municipal na Paraíba? Para responder a essa pergunta, os autores analisam 8.852 candidaturas aptas, sendo 3.064 femininas e 5.788 masculinas, articulando dados eleitorais e socioeconômicos provenientes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Atlas Brasil.
Mais do que apresentar números sobre a participação feminina, o estudo procura revelar as estruturas que estão por trás deles. A análise concentra-se nas candidaturas femininas e utiliza modelos estatísticos de regressão logit para investigar a relação entre características sociais, fatores partidários e aspectos relacionados aos recursos de campanha e o sucesso eleitoral. Indicadores de desigualdade, como os índices de Gini referentes aos recursos e aos gastos por voto, também são incorporados à investigação, permitindo observar como o contexto institucional e socioeconômico pode interferir nas possibilidades de eleição.
A opção por uma abordagem quantitativa e inferencial confere à obra uma importante contribuição para os estudos de Ciência Política, Gênero e Política e democracia representativa. Ao recorrer a procedimentos estatísticos como os testes de Wald e Hosmer–Lemeshow, a curva ROC, a medida AUC e o teste de DeLong, a pesquisa procura não apenas identificar associações, mas avaliar a capacidade explicativa e o desempenho dos modelos construídos.
Os resultados apresentados pelos autores provocam uma reflexão particularmente relevante. As candidatas que apresentaram determinadas características associadas à chamada feminilidade normativa, como serem brancas, casadas, cisgêneras, possuírem ensino superior completo e não declararem orientação sexual, apresentaram maiores chances de sucesso eleitoral. O fenômeno é interpretado pelos autores a partir da ideia de “batom”, conceito que atravessa a obra e simboliza a valorização de determinados padrões de feminilidade no interior de uma estrutura política ainda marcada por desigualdades.
Nesse sentido, o livro desloca a discussão da simples constatação da sub-representação feminina para uma pergunta mais profunda: quais mulheres conseguem chegar ao poder? A presença feminina nas urnas, por si só, não significa igualdade de condições. Entre candidatar-se e ser eleita existe um conjunto complexo de fatores sociais, econômicos, partidários e simbólicos que pode favorecer algumas candidatas e dificultar a trajetória de outras.
A conclusão de que a chance média estimada de uma candidata ser eleita para uma câmara municipal paraibana foi de aproximadamente 15%, equivalente, em termos aproximados, a uma eleita a cada sete candidatas, oferece uma síntese poderosa para compreender a dimensão do problema investigado. Mais do que uma estatística, esse resultado serve como ponto de partida para uma reflexão sobre a qualidade da representação política e sobre a capacidade das instituições democráticas de incorporar, de maneira efetivamente plural, a diversidade existente na sociedade.
O Batom e as Urnas é, portanto, uma obra que combina rigor metodológico, análise estatística e perspectiva crítica para examinar uma questão que ultrapassa os limites das eleições de 2024. Ao investigar a realidade das 223 câmaras municipais paraibanas, o livro contribui para compreender como as desigualdades de gênero se manifestam no nível mais próximo da população: o poder municipal.
Ao leitor, fica o convite para percorrer os dados, os modelos e as interpretações apresentados nesta obra e, sobretudo, para refletir sobre uma questão que permanece aberta: se a democracia pressupõe representação, participação e igualdade de oportunidades, o que significa quando apenas uma em cada sete candidatas consegue transformar sua candidatura em um mandato?
É nessa tensão entre participação e representação, entre igualdade formal e desigualdade concreta, entre as urnas e os espaços efetivos de poder, que O Batom e as Urnas encontram sua principal contribuição. Uma obra que não apenas contabiliza mulheres na política, mas procura compreender os mecanismos que determinam quais mulheres chegam ao poder — e quais permanecem pelo caminho.
Boa leitura!
