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E-book Feminismos Anticolonial: entre saberes, corpos e resistências do Sul Global


Organizadoras:

Camila de Freitas Moraes Garcia 

Débora Maria da Silva Pinto
 

Área de conhecimento: Ciências Humanas

Idioma: Português

Ano: 2026 - 1ª Edição

Número de páginas: 164 páginas

Formato: Pdf

Tamanho do arquivo: 1,61 MB

ISBN: 978-65-5321-082-0

DOI: 10.47538/AC-2025.82

Grupo de Estudos sobre
FEMINISMOS ANTICOLONIAL

Entre saberes, corpos e resistências do Sul Global

     Este livro é a materialização de um encontro entre vozes, territórios, afetos e insurgências que atravessam o Sul Global. Ele compõe um mosaico de experiências que desafiam a linearidade das epistemologias eurocentradas e convocam o pensamento a reconhecer a densidade política dos corpos, dos saberes ancestrais e das resistências. Em particular, esta obra é fruto das discussões e aprofundamentos do Grupo de Estudos sobre Feminismos Anticolonial. O grupo é idealizado, organizado e coordenado pela professora Dra. Camila Moraes e está vinculado tanto ao curso de Psicologia quanto à Escola Superior da Amazônia (Esamaz), campus de Abaetetuba, firmando um compromisso com o conhecimento produzido a partir da Amazônia. Cada capítulo aqui reunido expressa um gesto de desobediência epistêmica e ética, reposicionando no centro do debate aquilo que tem sido historicamente marginalizado: as vidas, as cosmopercepções e as lutas de mulheres e mulheres negras, povos tradicionais, migrantes, infâncias generificadas, mães atípicas e todas as comunidades que habitam as fronteiras da modernidade ocidental.
     Na tessitura deste livro, observa-se um movimento que conjuga crítica social, rigor acadêmico e uma profunda sensibilidade diante das múltiplas formas de sofrimento produzidas pela colonialidade. Há, também, um compromisso ético com a construção de projetos coletivos de vida que afirmem a dignidade dos grupos historicamente vulnerabilizados. Em diálogo com a psicanálise, com as teorias feministas, com o pensamento negro e indígena e com as epistemologias decoloniais, esta obra evidencia que a produção de conhecimento é sempre situada, afetada e comprometida.
     O primeiro capítulo analisa o avanço do racismo religioso no Brasil e a corrosão do princípio de laicidade do Estado. A partir de uma reflexão crítica e ancorada no conceito de necropolítica, demonstra como a violência instaurada contra as religiões de matriz africana opera como mecanismo de extermínio físico e simbólico, reafirmando desigualdades raciais, políticas e econômicas. O texto evidencia que a laicidade tem sido convertida em gesto meramente simbólico, permitindo a instalação de um Estado capturado por interesses religiosos hegemônicos. Ao iluminar essa dinâmica, o capítulo reitera a urgência da defesa da diversidade religiosa como fundamento democrático e condição de existência para múltiplas cosmopercepções.
     O segundo capítulo discute os desafios enfrentados por estudantes indígenas e quilombolas nas universidades federais brasileiras. Vai além da dimensão econômica da permanência estudantil ao analisar os efeitos persistentes do racismo institucional, do epistemicídio e do pacto narcísico da branquitude. O texto convoca a universidade a reinventar-se como espaço pluriversal, no qual diferentes modos de conhecer e existir possam ser reconhecidos, valorizados e legitimados. A permanência, aqui, não é assistencialismo, mas justiça histórica.
     No terceiro capítulo, a obra volta seu olhar às vivências de mulheres migrantes e refugiadas no Brasil, destacando como gênero, raça e nacionalidade estruturam formas específicas de vulnerabilidade. Tomando a interseccionalidade como norte, o texto evidencia que, embora a migração possa ser busca por autonomia, essas mulheres enfrentam barreiras legais, econômicas e culturais que lhes negam direitos e cidadania. A análise convoca políticas públicas sensíveis às diferenças, capazes de reconhecer essas mulheres como protagonistas de suas trajetórias e agentes de transformação social.
     O quarto capítulo problematiza a captura neoliberal do feminismo, analisando como discursos de empoderamento individual, centrados na meritocracia e na lógica de mercado, enfraquecem a dimensão coletiva das lutas feministas. A crítica expõe os limites desse empoderamento empresarial, que não alcança as mulheres negras, indígenas e periféricas e contribui para aprofundar desigualdades estruturais. O texto afirma a necessidade de um feminismo comprometido com emancipações coletivas, situado nas encruzilhadas de raça, classe e gênero.
     O quinto capítulo propõe uma reorientação das políticas públicas de gênero a partir da perspectiva do feminismo decolonial. Ao reconhecer a pluralidade de experiências das mulheres do Sul Global, o texto questiona a neutralidade das epistemologias hegemônicas e evidencia como os afetos também são produzidos politicamente. Trata-se de uma defesa da desobediência epistêmica como método e da produção de políticas que considerem histórias, territórios, saberes e corpos concretos.
     No sexto capítulo, o livro explora as políticas de saúde mental na Amazônia a partir de uma abordagem interseccional que articula gênero, raça, território e colonialidade. A análise sobre as mulheres ribeirinhas de Abaetetuba evidencia que seus sofrimentos não podem ser compreendidos apenas pelas lentes da psicologia tradicional, mas exigem a valorização dos saberes comunitários e das práticas coletivas de cuidado, apontando para limites e possibilidades das políticas públicas na região.
     O sétimo capítulo analisa a fabricação das masculinidades nas infâncias, examinando como família, escola e igreja atuam conjuntamente na construção de códigos de conduta que produzem e regulam performances masculinas hegemônicas. Ao discutir os impactos psicossociais dessa normatização, o capítulo evidencia formas de sofrimento, silenciamento e opressão que atravessam meninos desde a gestação. A dimensão subjetiva das masculinidades é aqui compreendida como resultado de práticas discursivas, afetivas e institucionais.
     O oitavo capítulo aprofunda o debate sobre maternagem atípica no município de Abaetetuba. As experiências de mães e cuidadoras de crianças com deficiência são analisadas como práticas políticas de resistência diante de estruturas estatais que historicamente as invisibilizam. O texto evidencia que, apesar da precariedade das políticas e da ausência de suporte, essas mulheres constroem redes solidárias e reinventam cotidianamente o cuidado como campo de luta, reconhecimento e produção de direitos.
     O nono capítulo encerra a obra com a força dos corpos que resistem e recriam sentidos de mundo a partir do Sul. As experiências de mulheres negras do extremo sul do Brasil revelam que o feminismo anticolonial não se constrói apenas como teoria, mas como prática viva, corporificada em gestos, ritmos e memórias que afirmam o direito de existir para além das fronteiras coloniais. Ao reconhecer o corpo como território de saber e de luta, o texto convoca à escuta das ancestralidades que sustentam as práticas de resistência e cuidado coletivo, nas quais o tambor, a dança e a palavra se tornam instrumentos de cura e reconstrução histórica. Trata-se de uma escrita que devolve humanidade ao que foi negado, transmutando a dor em potência criadora e o silêncio em linguagem, reafirmando que é no corpo e na coletividade que a emancipação se reinventa e se perpetua.
     Este livro é, assim, uma obra que fala de lutas e também de possibilidades. É tecido de análises densas, afetos insurgentes e perspectivas plurais que denunciam a violência colonial, ao mesmo tempo em que anunciam caminhos de emancipação sonhados e construídos nos territórios, nos corpos e nos movimentos sociais que ousam resistir. Convida suas leitoras e seus leitores a deslocar o olhar, a escutar vozes que por tanto tempo foram silenciadas e a perceber que o saber é sempre encontro, sempre atravessamento, sempre afetividade e responsabilidade compartilhada com o mundo.
     É, sobretudo, um chamado para caminhar junto com quem insiste, resiste e sonha: mulheres, povos originários, comunidades negras, coletivos feministas, mães atípicas, juventudes periféricas, ribeirinhas, quilombolas, migrantes e tantas outras presenças que fazem da luta uma forma de existir. Um convite à construção coletiva de um futuro justo, plural e radicalmente comprometido com a vida que se levanta, se inscreve nos espaços públicos e insiste em transformar a força inegociável da luta política.


Camila de Freitas Moraes Garcia
Ariadine Jamilly Assunção Monteiro

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